Fui entrevistá-la com o entusiasmo de um jornalista principiante, mas sem qualquer expectativa de que o resultado de nossa conversa saísse publicado em algum jornal ou revista. O motivo para a minha curiosidade estava numa frase que a velha me dissera ao telefone, no primeiro contato que travei com ela antes de enfim encontrá-la de gravador em punho: "A minha família carrega os genes da maluquice, meu filho. A cada geração, um ou dois parentes meus acabam miseravelmente doidos". Pareceu-me um bom começo.
A casa onde vivia, sozinha e sem filhos, ficava num bairro nobre da cidade, onde ninguém com menos de seiscentos mil reais se atreveria a ir em busca do imóvel dos sonhos. As ruas, arborizadas e com lombadas aqui e ali para brecar a ignorância dos motoristas mais exaltados, eram largas e pavimentadas. Percebia-se que, naquele local, nenhum político jamais pusera os pés carregando um saco de promessas. Não, pelo que pude me informar antes, com amigos de classes sociais mais privilegiadas, era costume da comunidade que tudo fosse pago em rateio. Morava ali uma gente que realmente dava ao seu patrimônio a importância que qualquer cédula de dinheiro merece, por mais amarrotada e puída que esteja.
Apertei o botão da campainha com certa displicência, embasbacado com a mansão que eu via à minha frente. O que mais chamava a atenção é que a residência inteira, dos alicerces às mais altas janelas, era inteiramente constituída de pedras. Sua aparência rochosa dava à casa um ar medieval, não sei por quê. Uns dez segundos depois de eu ter pressionado o dim-dom, uma voz anasalada respondeu do outro lado: "Empurre o portão, meu filho, está aberto. Só limpe os pés no tapiz antes de entrar".
"Tapiz?", perguntei-me ao me dirigir à porta da frente. E foi com essa interrogação na cabeça que parei diante da grande porta, e olhei para o chão. Um grande tapete verde musgo, novo, diria até recém-comprado, tinha estampado em letras góticas e douradas, numa mistura diria kitsch: TAPIZ. Sorri, sentindo-me um tanto desarmado. Esfreguei bem os pés naquele sinônimo afetado e girei a maçaneta. Então, a vista que tive da sala terminou por me bater por inteiro. Eu conversaria com uma mulher fina, rica e imensuravelmente infeliz. Que dia.
Ela iniciou a conversa pedindo a um empregado que nos servisse um refresco qualquer. E principiou o seu relato da maneira mais inusitada:
– A minha família é problemática desde os tempos do Brasil Colônia. O pai do meu bisavô, um amanuense que fez fortuna envolvendo-se com grandes empresários do tráfico de negros, enlouqueceu no fim da vida. Todo o patrimônio que amealhou com as transações dos portugueses foi perdido no seu tratamento, na tentativa de recuperar sua sanidade. Seu filho, meu bisavô, teve de começar a vida do nada. Anos depois da morte do trisavô, quando a República foi proclamada e tão logo Floriano desbaratou os federalistas, ele se casou com uma mulher de posses no Rio de Janeiro. De seus cinco filhos, dois morreram - um deles no manicômio, o mesmo em que Lima Barreto viria a ser internado. Dessa forma, desde sempre os malignos genes da sandice sujam o sangue da minha família. E é por descobrir isso a tempo, ainda na minha tenra adolescência, lendo os diários secretos de minhas avós e bisavós, conferindo linha por linha a desgraça que a cada vinte ou trinta anos se abate sobre nossa linhagem, que resolvi não ter filhos, decisão nunca compreendida, apenas tolerada, por papai e mamãe. Com a morte prematura de minhas irmãs - todas em circunstâncias completamente alheias à nossa triste sina (de infarto, atropelamento, desastre aéreo), restou apenas um irmão mais novo, que está prestes a se casar. E é sobre isso, e por isso, que o chamei à minha casa, meu filho. Tenho uma confissão a lhe fazer.
Não fosse a forma encantadora que a velha encontrara de me contar o lamentável passado de seu sobrenome, eu teria levantado e ido embora. Tudo aquilo de amanuenses, traficantes de escravos, segredos da corte, mortes e manicômios soara-me inverossímil. Havia fumos de Eça de Queirós no relato bizarro que eu acabara de ouvir. Mas um instinto de reportagem, uma ânsia por tornar público, de algum jeito, uma história obscura e certa curiosidade mórbida (que só gora, depois de tudo, começo a compreender) fizeram com que eu apenas me remexesse na confortável poltrona em que estava instalado e desse mais um gole do refresco. Pedi que continuasse, eu era todo ouvidos (e, sorrindo, mostrei-lhe o gravador).
– Durante toda a minha vida – que já tem décadas, posso lhe garantir isso sem que você tenha o despudor de me perguntar quantas –, o meu maior desafio foi jamais cair na tentação de me casar, e com isso constituir família, e com isso ter filhos, e com isso correr o risco de legar às minhas crianças, e ao futuro de meu sobrenome, portanto, os genes da nossa desgraça. Os cadernos em que minhas avós descreveram os seus infortúnios estão aqui, velhos e encarquilhados, com as páginas soltas, e você vai poder levá-los para ler com calma. Mas meu irmão mais novo, como eu dizia, está para se casar. A sua noiva é das mais belas criaturas que já parou diante de meus olhos. Tem finesse, um belo corpo, lindos olhos, é medianamente culta e lida, mas não sabe cozinhar. Esse detalhe, apesar de ser considerado grave falta em nossa família, uma família em que as mulheres sempre se destacaram pelo talento na cozinha, quando não estavam quebrando o quarto ou atirando-se pela janela em acessos de insanidade, esse detalhe não conseguiu impedir que meu pobre irmão se encantasse com a moça e lhe pedisse a mão. Estão às portas da igreja, e isso me preocupa. Muito pensei, muito pensei mesmo, até que encontrei a solução para essa questão matrimonial, depois de folhear os classificados de jornais durante semanas. Aliás, não me leve a mal não, meu filho, mas me impressiona bastante que alguém possa ler uma outra seção dos nossos jornais que não a dos classificados. Francamente...
Eu só ri. E mostrei-lhe novamente o ávido gravador, numa súplica para que continuasse o seu testemunho, que nem um pouco me aborrecia.
– Em suma, garoto, eu o chamei aqui em minha casa por uma razão bem honesta e, creio, compreensível: eu quero que você assassine meu irmão mais noivo.. Novo! Hahahaha, de vez em quando as palavras me escapam tão facilmente... Bem, é isso. Você terá todo o dinheiro de que precisar para alcançar o seu intento. Polícia alguma neste mundo vai um dia descobrir que foi você quem deu um jeito em meu irmão. Acredite, ninguém vai dar a mínima. Repito: o importante é que os genes de nossa maluquice não tenham mais nenhuma chance de infelicitar vidas futuras.
Eu não tive coragem de dizer não. Acenei que sim com a cabeça, desliguei o gravador e terminei a minha bebida. O copo quase escorregou da minha mão, pois estava todo molhado e o líquido em seu interior, morno, com a tepidez das coisas sem graça. A velha se levantou, sem dizer nada, largou os diários secretos de suas avós sobre uma pequenina mesa de centro, e saiu da sala. Menos de um minuto depois, enquanto eu ainda absorvia a gravidade daquela incumbência inesperada, o mesmo empregado que nos servira entrou carregando uma maleta 007 e estacou à minha frente. Ele destravou os trincos da maleta e me mostrou o conteúdo. Eram milhares de notas de cem dólares, e uma pistola cromada, caso eu resolvesse me livrar do noivo marcado para morrer da maneira mais convencional e ordinária. O serviçal fechou a maleta, me ofereceu-a e me acompanhou até a porta.
***
No fim das contas, tudo deu certo. Eu não precisei usar a automática, nem tive de pensar muito em como assassinar o sujeito. Enfim, não há mais possibilidades dos genes malvados serem expelidos por qualquer esperma de um macho daquela família esquisita. Mas o que me intriga ainda hoje é como a velha descobriu, ou intuiu, que eu, um reles estudante de jornalismo, adolescente e imberbe, inábil para quase tudo na vida que exija maturidade, pudesse me tornar um assassino profissional numa tarde quente de verão, sentado numa poltrona bergere e degustando um suco de frutas cítricas. A única explicação possível que encontrei para esse fato foi a de que a velha – que não me conhecia, nunca falara comigo, nunca tinha sequer me visto – simplesmente era maluca. Até porque, ela seria estúpida demais se pensasse que eu leria aqueles diários embolorados e investigaria a vida da sua família até o Brasil Colônia para checar todos os fatos. Eu sou jornalista, não historiador. Só uma maluca não ofereceria logo o dinheiro e deu, está acabado. Vá entender.
26/11/2006
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fiquei curiosa.
ResponderExcluirpronto, não foi fácil. ;)
ResponderExcluirhahaha, bom, muito bom. :)
ResponderExcluirbárbara, quem é você?
ResponderExcluirsei que estou me desfazendo das regras, mas tô curiosa...
voltei. :)
ResponderExcluirjade, se contar perde a graça :P