A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queirós - Editora Ática
A redescoberta do ano. No colégio, desprezava tanto as professoras quanto as aulas de Literatura. O que elas diziam pouco importava, o que elas ensinavam eu não aprendia. Dos livros que indicavam, para no fim fazermos aquelas temíveis e chatíssimas fichas de leitura, não guardei nada de nenhum. (De vez em quando eu as atazanava, escrevendo redações extensas, segurando-as em sala de aula depois do horário para que eu pudesse escrever folhas e folhas de papel almaço, com uma letra miúda de criança.) Azar meu: só fui ler Machado de Assis na universidade, muito atrasado; surpreendido e embasbacado a um só tempo. Do Eça, nem uma página. Mas eis a Série Bom Livro, da Editora Ática, rediviva nas estantes aqui de casa. Depois de ler A ilustre..., que é excelente, percorri os sebos e comprei os romances e novelas que encontrei do autor. No todo, este é um belo livro. Os trechos escritos pelo próprio Gonçalo Ramires, porém, são enfadonhos, porque intricados com a história de Portugal, que pouco conheço. Nesses momentos dá vontade de imitar o "Fidalgo da Torre" e exclamar, aborrecido: "Irra, que maçada!".
Segue tela abaixo um diálogo de Gonçalinho, à página 35, em que ele, depois de um lauto jantar, explica a um amigo, João Gouveia, o porquê de detestar um cidadão chamado André Cavaleiro, homem de governo e seu inimigo, conhecido de ambos:
– Escute você, oh João Gouveia! Por que é que você lá em cima, à ceia, não comeu a salada de pepino? Estava divina, até o Videirinha a apeteceu! Eu repeti, acabei a travessa... Por que foi? Porque você tem horror fisiológico, horror visceral ao pepino. A sua natureza e o pepino são incompatíveis. Não há raciocínios, não há sutilezas, que o persuadam a admitir lá dentro o pepino. Você não duvida que ele seja excelente. Desde que tanta gente de bem o adora; mas você não pode... Pois eu estou para o Cavaleiro como você para o pepino. Não posso! Não há molhos, nem razões, que mo disfarcem. Para mim é ascoroso. Não vai! Vomito!... E agora oiça...
Sabe aquela frase do Mark Twain de que "a diferença entra a palavra certa e a quase certa é a mesma diferença entre o relâmpago e o vaga-lume"? Precisei ler um livro do Eça de Queirós para compreender o seu alcance e significado preciso.
Português de Portugal para as nossas crianças!
irra, que maçada!
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