Do golpe ao Planalto, de Ricardo Kotscho - Cia das Letras Leitura rápida e sem percalços. Texto escorreito, como sempre. Os críticos cobraram revelações do governo Lula, bastidores das maracutaias, das sacanagens, e tal. Mas não tem, nem poderia haver, acho. Kotscho é amigo de Lula. Amigo mesmo. E jura que não foi por "decepção" que deixou o governo. Já estava combinado de ele sair no início do primeiro mandato. O tesão de estar no poder (não por mandar, claro, mas por viver o inverso do que ele sempre vivera como jornalista) é que o segurou mais alguns meses. No fim, porém, ele deixa no ar um sentimento estranho, quando relata o abatimento em Lula, Marisa e todos os outros depois das denúncias de mensalão etc... Então, os bons momentos da obra são mesmo os das confidências profissionais. Claro que Kotscho é um craque, levou tudo que é prêmio, e os mereceu. Mas no livro ele comenta uma porção de burradas como jornalista. Reconheçe a autoria de algumas atitudes que irritariam o mais empedernido esquerdista e o mais idealista dos repórteres. Alguém imagina o Kotscho denunciando picaretagens de pessoas humildes e famílias pobres, redigindo notas contra o MST, enchendo lingüiça, levando com a barriga, seguindo os ditames do patrão, voltando pra redação sem a matéria que o chefe lhe bancara? Fez tudo isso, também. É o melhor do livro. Um outro Ricardo Kotscho sai dali de dentro. Mais verossímil do que aquele super-homem da imprensa brasileira, sempre pronto a defender os bons contra os maus, que vendem nas faculdades de jornalismo.
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