30/10/2006

Hebreliano

Acabo de ler uma maravilha (obra-prima é demais). É um livreto com dois relatórios dirigidos "ao governador do Estado de Alagoas" por Graciliano Ramos, então prefeito de Palmeira dos Índios. Os textos são os resumos dos anos 1928 e 1929: que foi feito, como foi feito, por que foi feito e quanto foi gasto do dinheiro público. Todo um Brasil rural, esquecido, dos grotões emerge dali. E o texto é uma belezura de muitos quilates. O agradecimento pela sua publicação deve ir para a revista EntreLivros, que inaugurou a série Brasiliana, em formato de bolso. Mas o que me chamou mais a atenção foi o nome de um médico. Contratado por Graciliano Ramos para ser o chefe do posto de higiene, recém-construído, ele se chamava... ...Hebreliano Wanderley. Eu li, reli, e imaginei que era uma brincadeira do Graça. Hebreliano... Sobrenome? Wanderley... Logo imaginei o nascimento do homem. Do Hebreliano... Século XIX, um casebre encravado no sertão das Alagoas. A parteira, gorda, negra, entra afobada, suando rios. De dentro do quarto vêm os gritos da grávida, que se contorce em cima de uma cama. O homem vê a parteira e pula da cadeira. Até que enfim. Quando a mulher já está se dirigindo para o quarto, fazer seu trabalho, o homem a pega firme pelo braço. Ela volta o rosto para ele, e ouve: - Não vá matar o Hebreliano. Eu quero esse menino vivo.
A parteira puxa o braço e se vai para dentro do quarto. Fecha a porta. O homem volta a sentar-se, sério, compenetrado. A mesma parteira já lhe matou três rebentos. Em cada uma das vezes, disse que não tinha culpa. Que os moleques é que já saiam azuis do ventre da mãe. Mas agora isso não podia acontecer - o homem não deixaria. Os avôs já estavam até ansiosos por pegar o bebê no colo.
- O meu Hebreliano...
A parteira sai do quarto, busca água fervente, que uma negrinha esquentara no fogão à lenha. E volta para o quarto. A gritaria, abafada, continua. Hebreliano, decerto, briga pela vida lá dentro. O homem começa a enervar-se.
- Hebrelianinho não pode dar errado...
O cabra nasce. A parteira abre a porta e sai com a criança enrolada num pano ensangüentado. Do quarto vêm só gemidos e suspiros de exaustão.
- Tá aqui o seu Hebreliano, senhor.
Sem o mínimo jeito, completamente embaraçado, o homem toma o bebê nas mãos. Ergue o menino contra a luz que entra pela janela. Lá fora, a terra queima ao sol agreste. O homem sorri e pergunta em voz baixa:
- Bem-vindo, meu Hebreliano... Não é esquisito?

2 comentários:

  1. Anônimo12:34

    É isso aí guri. Quero ver manter o ritmo. Estou de olho, meu velho.

    Abração!

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