30/12/2008

A crônica de hoje, no DC + Beirut

A página 7 do caderno Variedades de hoje, no Diário Catarinense, traz a minha crônica - última do ano - e uma matéria do Correio Braziliense sobre Zach Condon, o trompetista de 22 anos que já lançou quatro discos com sua banda, Beirut (Elephant gun, da microssérie Capitu, é dele). Aqui, a matéria. Abaixo, a música e a crônica.
Discover Beirut!
Vai melhorar A história contada abaixo é de 2007, ocorrida muito antes, portanto, de as enxurradas deste fim de ano matarem 136 pessoas. A conta não fechou, é certo: de sob um monte de lama e ruínas ainda podem ser desenterrados alguns corpos, recuperadas muitas histórias. Mas é que as notícias da descoberta de roupas em esgotos, em Palhoça e em Camboriú, já são um desalento para quem pretendia virar o ano com um pouco mais de esperança... *** Há um vigia que, todas as noites, patrulha a rua onde moro. Está sempre só, com um porrete na cintura. Veste calça cáqui e casaco preto. É negro ou mulato, não sei, pois o vejo de passagem, de dentro do carro. O que sempre faço é levantar a mão, tentando ser cordial. Ele costumava responder com um sorriso. De qualquer forma, o esqueço com facilidade. Vejo-o agora, esqueço-o ali, à garagem. Mas quando estamos na cozinha, jantando, o janelão aberto à brisa, o silêncio da noite é quebrado pelo apito do vigilante. É o alarme: estou aqui, zelo por vocês, que Deus me ajude. Minha vontade é descer, apertar a sua mão, dizer “lembrei-me”. Não faço nada, até que o próximo silvo me belisque a consciência. Um gole a mais de vinho e a letargia arrisca voltar. Certa vez, porém, o silvo soou diferente. Chegamos em casa, e no hall de entrada havia uma carta da síndica na caixa do correio. O nosso vigia estava em apuros. Sua casa pegara fogo, e a polícia tratava o caso como incêndio criminoso. O sujeito perdeu tudo e veio ao nosso condomínio com a garganta e os olhos apertados. Explicou a situação, B O em punho. A carta da síndica era um apelo. Pedia que todos do prédio revirassem o baú de tralhas guardado no depósito da garagem, os armários e as estantes de cada apartamento, em busca de doações. Transmitia dor, e pedia ajuda em nome do vigilante. Num sábado, o homem apareceu, recolheu os donativos e refez a vida. Hoje, ele segue patrulhando a rua. E retribui o cumprimento com um sorriso e um aceno. *** À época, lembro ter ficado espantado com essa solidariedade despertada apenas quando a tragédia alheia nos bate à porta. Acabei aliviado por descobrir que todos ainda temos compaixão, mesmo que escondida sob goles de vinhos. A solidariedade foi renovada neste fim de ano. Que 2008 termine logo, e que as famílias flageladas pelas chuvas de novembro encontrem forças e ânimo para estourar um champanhe na quarta-feira.

27/12/2008

Recesso...

De férias... Sem "blogar"... ps. terminei Suave é a noite, do Fitzgerald. Comento ainda este ano, com outras nanopiniões atrasadas...

22/12/2008

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense! Rogério e Daniel Que as situações extremas revelam o que temos enterrado dentro de cada um de nós, é sabido. Homero, que – dizem – sequer viu a Guerra de Tróia, deixou esta verdade escrita na Ilíada e na Odisséia. Eu não li Homero, mas, ao contrário dele, assisti a muitos filmes de guerra em que mostrar a dualidade humana (bem e mal) é quase uma imposição narrativa. A semana passada nos deu um exemplo dessa nossa sombra e dessa nossa luz aqui mesmo em Santa Catarina, em meio à tragédia da enxurrada. Na segunda-feira, voltou a chover: dezembro inteiro desaguou em menos de 24 horas. Na manhã de terça, morros desfeitos, ruas obstruídas, residências alagadas, prédios ameaçados, gente desabrigada ou que nem dormiu tentando salvar móveis, roupas, eletrodomésticos, bichos de estimação. Tudo de novo, desgraçadamente. A volta da chuva foi ainda mais doída porque, na noite de domingo, reportagem da RBS TV nos apresentara a denúncia de que objetos doados por gente de todo o Brasil estavam sendo retirados livremente de dentro de um depósito em Blumenau. Militares descarregavam caminhões abarrotados de doações aos chutes, e depois se punham a rapinar o que mais lhes agradasse e servisse. Na reportagem, apareceu ainda Rogério Long. Ele, a mulher e a filha entraram no depósito, encheram um carrinho de supermercado, carregaram o carro e foram embora. Os repórteres os seguiram, e a casa amarela dos Long brilhou no vídeo: nem uma gota de lama ou de água parecia ameaçá-la. Entrevistado, ele disse que trabalhou como voluntário, e fez cara de paisagem para responder que claro, os donativos têm de ser entregues a quem necessita de fato. Dois dias depois, o casal voltou ao depósito e – ela aos prantos – devolveu tudo. Na quarta-feira, eis que surge Daniel da Silva, ninguém mais necessitado. Morador de Ilhota, sua casa nova e cinco familiares seus foram soterrados por uma avalanche de lama. Vivendo agora na residência de parentes, o agricultor e sua família desfalcada receberam muitos donativos. Dentro de um casaco de pele, a neta do seu Daniel encontrou 20 mil reais. O avô só descansou depois de conseguir devolver a quantia ao doador de Concórdia. Sei que o assunto está caduco, mas a reflexão me parece eterna: o que diferencia o classe-média-não-atingido Rogério, que fez a devolução porque virara notícia, do agricultor-flagelado Daniel, que virou notícia por causa da devolução?

18/12/2008

Porque o livro ergue a civilização

Confira abaixo:
 
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