Tinto forte, noite adentro. O outono aborreceu-se e nos despejou um vento sul que castiga o rosto descoberto. Daqui dois dias, calculo, as paredes ficarão frias, e em algumas correrão gotículas de água invernal. No escritório, será missão nossa, leitores de mãos calorosas, salvar os livros da umidade, do mofo e do mau cheiro. Será também um tempo de água gelada na torneira, banhos quentes e demorados, aquecedor ligado no máximo. A ventania, tinhosa, enfiando-se, esgueirando-se pelas frinchas das venezianas (as cortinas se mexendo, de leve, alertando para o perigo da brisa encanada). Roupas lavadas sem varal em que descansar, sós ao vento, secas jamais. As escolhas da manhã, pavorosas, amorosas: sair debaixo dos cobertores, abandonar o travesseiro, separar-se da mulher de pele tépida e toque macio, pés descalços no chão gélido, rumo ao banheiro de azulejos; desligar o despertador, ativar o soneca, rolar mais um pouco, dormir mais um tanto, fazer amor, ficar deitado nu envolto pelo calor do orgasmo; levantar-se de supetão, correr ao armário, vestir-se às pressas, tomar um capuccino e sair para enfrentar o mundo e ganhar a vida. Lá fora, já sei: briga de guarda-chuvas, calçadas e esquinas alagadas, carro que joga água da sarjeta nos passageiros de ônibus. Voltar para casa com a calça jeans molhada, os tênis encharcados, as meias ensopadas, o frio pendurado nas costas. Enquanto na rua, enregelados, embrutecidos, crianças e cães buscam abrigo em meio ao breu espesso, luta sem trégua por fogo, conforto e carinho. É o outono aplicando o inverno. Tinto forte, noite adentro.